Tempo de Empreender

Projeto do Instituto Camargo Corrêa fortalece comunidade produtora de sisal na Bahia

Terça, 14 de Outubro de 2014, às 15:16
Há um ano, o projeto Tempo de Empreender levou uma nova fonte de renda para as famílias da região Há um ano, o projeto Tempo de Empreender levou uma nova fonte de renda para as famílias da região

O Brasil é o maior produtor e exportador de sisal, com uma produção anual de cerca de 80 mil toneladas, sendo cerca de 95% produzidos na Bahia.

Mas, no povoado do Baixão, no município de Campo Formoso, esse destino é quase desconhecido. Ali, vivem 80 famílias que trabalham há gerações na extração sisaleira. Elas são a base dessa cadeia. Quem trabalha no corte ganha R$ 1,60 pelo quilo da fibra ainda úmida. Esse valor é ainda menor se a colheita for feita por uma mulher, que geralmente ganha entre R$ 20 e R$ 30 por semana.

Há um ano, o projeto Tempo de Empreender, do Instituto Camargo Corrêa (ICC), entrou na comunidade para fortalecer a produção do sisal e trazer uma nova fonte de renda para as famílias. O projeto é um dos 16 que foram implementados a partir do Acordo de Cooperação Técnica firmado entre o ICC e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 2011. O acordo fixou um convênio de R$ 50 milhões de investimentos até 2016 em projetos de qualificação e estruturação de atividades produtivas com populações de baixa renda.

No Baixão, o projeto é realizado com a participação direta da fábrica da InterCement em Campo Formoso e executado pelo Instituto Meio. "O desenvolvimento de parcerias está na estratégia do BNDES e faz parte

de uma visão ampla do desenvolvimento que engloba o econômico, social, ambiental e cultural", afirma o engenheiro Joaquim Pedro Cordeiro, do Departamento de Economia Solidária do BNDES.

Entre as comunidades localizadas na região da fábrica, a do Baixão foi escolhida por já ter uma associação constituída e atuante. "Buscamos agir em

quatro vertentes: diminuir o número de mulheres no sisal, eliminar uma série de atravessadores, introduzir o uso de Equipamentos de Proteção Individual [EPIs] e ter uma unidade de referência de produção agrícola", explica Felipe Furini Soares, consultor do ICC.

"A ideia nunca foi tirar o pessoal do sisal, porque isso não é realista", explica Ira Helal, do Instituto Meio. O projeto quer fortalecer a produção dando maior renda a essas famílias e, para isso, atua em duas frentes. Foi construído um galpão de armazenamento para o sisal e a Associação recebeu capital de giro. Hoje, a Associação paga cinco centavos a mais que o mercado no quilo do sisal aos produtores e faz a venda posterior em volume.

Por outro lado, o projeto implantou uma horta de um hectare onde a comunidade pode trabalhar e gerar renda complementar. A produção é consumida pelas famílias e vendida para o refeitório da fábrica da InterCement. O restante é levado a feiras livres e também vendido para a Prefeitura, que usa os produtos na merenda escolar.

"Pensamos em alguma atividade que fosse menos agressiva para as mulheres, que gerasse renda familiar e fosse menos sacrificante", conta a gerente administrativa da InterCement, Maria Celeste Souza.

Oferecer uma alternativa ao sisal para as mulheres significa também reduzir o trabalho infantil. "Como não têm com quem deixar, elas levam as crianças, que acabam carregando a palha. Não entendem que é trabalho e acabam deixando de ir à escola", diz Celeste.

O trabalho com a horta é um desafio para essas famílias, que não são de agricultores. O retorno é mais demorado e exige investimento de trabalho diário. "É um trabalho de ensinar a ser empreendedor", diz Ira.

O projeto permanece na comunidade até o final deste ano. A partir daí, o Baixão segue com as atividades por conta própria. O apoio da fábrica, porém, permanece, já que ela participa do Comitê de Desenvolvimento Comunitário (CDC), em conjunto com secretarias municipais e a Pastoral da Criança, entre outras entidades. "Com a evidência do projeto para a associação, outros atores se aproximam e geram conquistas interessantes para o Baixão. O objetivo é fortalecer capacidades internas", conclui Felipe Soares.